segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

A Invenção das Asas - Sue Monk Kidd



KIDD, Sue Monk. A Invenção das asas. São Paulo: Paralela, 2014. Título original: The Invention of Wings. 328p.

Eu estava prestes a cair o sono quando ela falou: "Eu devia ter costurado aquela seda verde dentro da colcha e ela nunca ia descobrir. Não me arrependo de ter roubado, só de terem me pegado".
"Por que você pegou?"
"Porque", ela respondeu, "porque eu podia".
Aquelas palavras grudaram em mim. Mamã não queria o tecido, só queria causar confusão. Ela não podia ser livre e não podia dar na sinhá com uma bengala, mas podia pegar a seda dela. Você se rebela do jeito que pode. p.40

A Invenção das Asas é um romance histórico que se passa no século XIX no sul dos Estados Unidos e conta a história de três meninas - uma escrava e duas irmãs brancas que cresceram juntas. O livro mistura fatos reais e ficção já que as duas irmãs existiram mesmo e quando cresceram tornaram-se as primeiras mulheres abolicionistas e feministas americanas.

O livro mostra os horrores da escravidão e como Sarah, nascida em uma família aristocrata e dona de escravos, cresceu indignada com a escravidão e como se sentia impotente por não poder fazer nada pelos escravos. Principalmente por ser mulher. Sarah influenciou a irmã mais nova, Nina que também lutou pela abolição e para que as mulheres tivessem voz. 

Mas a história é centrada em Sarah e na escrava Encrenca que ela ganhou no aniversário de 11 anos. Encrenca tinha 10. As duas cresceram juntas e mesmo vivendo na mesma casa, faziam parte de mundos totalmente diferentes. Sarah ressentia-se por não ter voz entre os homens e por não poder ter uma profissão. Seu sonho era ser advogada, mas seus planos foram frustrados muito cedo pelo pai e pelos irmãos que a ridicularizaram por sonhar tão alto. Encrenca cresceu ao lado de Sarah e por mais que a amiga tentasse protegê-la, ela não conseguiu escapar da violência e das humilhações por ser negra e escrava.

Sarah queria falar, queria que sua opinião fosse ouvida, mas para uma mulher no século XIX isso era impossível. As mulheres deveriam se casar e cuidar da casa e dos filhos e se não se casassem deveriam cuidar da mãe e das irmãs. Sarah teve que lutar e fazer escolhas difíceis para escrever seu próprio destino, assim como a irmã Nina. Encrenca, como escrava, não podia nem lutar.

A história é contada em primeira pessoa alternando os pontos de vista de Sarah e Encrenca. É um livro lindo, forte que fala de um assunto importante, doloroso e delicado de forma às vezes leve, noutras chocantes. A linguagem muda conforme os pontos de vista. Enquanto Encrenca fala da forma simples com que os escravos falavam, ainda que ela fosse uma escrava letrada, Sarah narra a sua história com uma linguagem mais formal. É interessante também perceber como elas enxergavam a vida e as situação com diferentes olhares. 

"Bens e escravos. As palavras do caderno de couro apareceram na minha cabeça. A gente era como o espelho de moldura dourada e a sela do cavalo. Não pessoas de verdade. Não acreditava nisso, nunca acreditei um dia de minha vida, mas se você escuta os brancos por muito tempo, uma parte triste e derrotada de você começa a acreditar. Todo o orgulho por causa de nosso valor me deixou. Pela primeira vez, senti dor e vergonha por ser quem eu sou." (Encrenca) p.101

A autora fez uma excelente pesquisa e soube descrever com detalhes os costumes e o  pensamento da época e retratar o tratamento dado aos escravos a forma com as mulheres viviam. Apesar de a escravidão ter acabado, a história é, infelizmente, ainda muito atual. O racismo não acabou, os negros continuam sendo na maioria pobres e com dificuldade de mudar a vida que têm. Alguns diálogos do livro, inclusive o trecho que eu transcrevi no início da resenha, falam muito sobre as diferenças sociais e me fizeram pensar em como o mundo, o Brasil inclusive, lida com essas diferenças. Esse trecho especificamente me tocou bastante porque diz muito sobre a atualidade. Livro super recomendado! Maravilhoso! Já é um dos meus favoritos! Leiam!

Avaliação: ★★★★ 

Até a próxima.
Beijos e boas leituras. :**

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8 comentários:

  1. Ei Nadia

    Nossa nem imaginava que este livro era tão bom, gostei muito da resenha e vai para a listinha gigante de desejados hehe.
    bjs

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  2. Eu tenho receio de ficção histórica, ainda mais quando se localiza no século XIX e quando é um tema que me é querido... Mas Nadia, se você recomenda nesses termos então eu vou apostar minhas fixas nesse livro e depois te conto!!!

    Cheros...

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    1. Eu gostei muito do livro, Pandora. vale a pena.
      Beijos.

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  3. Já tinha ouvido falar desse livro mas não tinha ideia que ele fosse tão interessante. Vou correndo add ao meu skoob e assim que puder comprar e ler. Adorei sua resenha e os pontos que vc destacou. Parabéns pela leitura e obrigada pela indicação de leitura. Beijos e saudades.

    Leituras, vida e paixões!!!!

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    1. Que bom que gostou, Aline. Vale a pena ler sim.
      Beijos.

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  4. Ótimo texto de resenha. Meus parabéns! Amei a maneira que vc usou para se expressar, me fez se interessar pelo livro....mas vc já leu o livro reverso... se trata de um livro arrebatador...ele coloca em cheque os maiores dogmas religiosos de todos os tempos.....e ainda inverte de forma brutal as teorias cientificas usando dilemas fantásticos; Além de revelar verdades sobre Jesus jamais mencionados na história.....acesse o link da livraria cultura...a capa do livro é linda ela traz o universo como tema.
    http://www.livrariacultura.com.br/scripts/resenha/resenha.asp?nitem=78725243

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    1. Obrigada e bem vindo ao blog. Vou dar uma olhada sim.

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Adoro comentários e respondo aqui mesmo, conforme eu vou lendo.
Gentileza gera gentileza.
=)